E do nada se vive, como podre é a descrença em algo insólito
ou revolto, como podre é a falsa propensão de se achar superior ao mais puro
dos sentimentos, estúpida é a besta que assume que, por ser mau, poder obtém.
Não passa de uma criança mimada, abismada com a fome da vida que se acha
engraçada por fumar um cigarro queimado.
E assim como um monte de cravos pretos deixados sobre um
moribundo sozinho numa capela em frente ao mar, se vai o carinho, a meiguice,
enterrando tudo bem fundo onde nem as raízes da árvore mais forte alcançam. E
lá vem o monte de punhais esfaquear-me, pôr-me os músculos à mostra e
espicaçar-me, como se disso dependesse a sua vida. Ouço o sangue cair numa
poça, o som é oco e gutural, raspando ao de leve o macabro. Mas nada sinto,
nada causa reação em mim, e isso nem é bom nem mau, apenas seguro e frágil.
Como as mãos de uma criança pende a minha sanidade que sem segredo ou pertença
se autodestrói com ecos do passado, para alguns leves sussurros, para mim
gritos cortantes como lâminas de um talho antigo a cortar os meus ouvidos.
Estou exausta, a força acabou, a pressão caiu, o mundo
terminou e nem o sol da primavera me espevita. A compreensão abate-se sobre mim
e a vitimização olha-me de soslaio como me convidando para um copo na taberna
da escuridão. Aceito-o porque a bengala é resistente e facilmente se adapta ao
aconchego dos ossos esburacados da minha alma. Mas corrói demasiado e quando
penso que a taberna já não me abriga, as portas fecham-se e uma poeira de
porcaria (intitulada por nome obscuro) encara-me e detém-se, como esperando que
lute, que enfrente, que me esmurre até sair deste nojo que ali vive. Mas não me
levanto! Anos a lutar não deram em nada, porque haveria de pôr mais farpas de
madeira suja nas palmas das mãos que já nem sei se minhas são? Deito-me,
aconchego-me à depressão é bom desistir de tudo, é bom morrer por dentro e nada
sentir, apenas é incomodativo as lágrimas límpidas que caem dos olhos meus.
Suspiro e desisto do meu lado negativo, porque o morto na
capela em frente ao mar merece carinho, nem que seja por mais um dia.
Levanto-me, mas logo escorrego na gosma gordurenta que se encontra no chão.
Perdi a noção do tempo que estive no repouso da estupidez, a poeira cola-se aos
meus pés e de tão partida que estou, arrasto-me, porque a voz teimosa não se
cala e manda-me continuar. Queixo-me, cortes profundos surgem sobre os braços,
e quando finalmente à porta chego, a poeira enfrenta-me, mas eu apenas tomo o
caminho mais longo, sentindo o espezinhamento cru dos olhares mesquinhos de
quem me julga e não conhece. Abro as portas como se isso me fizesse viver e o
sol ataca-me, como a realidade ataca após um sonho perfeito. Estendo-me sobre o
chão, s feridas doem como se sal fosse posto sobre elas, os olhos ardem, eu
choro e o sol ri, porque voltei a viver.
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