sexta-feira, 4 de março de 2011

Sob a chuva

Ao fim de 4 horas seguidas a jogar basket, naquele campo improvisado a beira-rio, deito-me sobre o chão composto por uma mistura de terra e areia e observo o céu. Sinto-me cansada mas contente, não por ter ganho ou perdido, apenas porque sim. Olho o céu, não sei quanto tempo passou, apenas me apercebi que passou pela mudança das nuvens, o azul claro fora substituído por um cinzento-escuro, a primeira gota cai-me nos lábios, como se me quisesse beijar, a segunda na face como que me pedindo desculpa por ser tão indiscreta, a terceira na ponta do nariz, a quarta e a quinta caiem em simultâneo, uma na testa, em sinal de respeito e a outra na palma da mão como que me acordando, os meus amigos correm para se abrigar, chamam por mim mas eu não quero parar esta sensação e digo que já os apanho. A chuva intensifica-se e eu começo a rir, não porque a insanidade me apanhou nas malhas da loucura, mas porque o meu corpo precisa de rir para compensar tantas lágrimas. Neste Mundo os motivos para sorrir são tão poucos ou a importância dada a esses motivos é tão fraca que senti essa necessidade. Ninguém se lembra mas um sorriso é uma arma tão poderosa como a bomba nuclear, exagero meu talvez, mas se todos sorríssemos mais, a vida decorreria de certa forma mais leve e solta, as preocupações aos poucos desapareciam, sendo substituídos por um novo fôlego de confiança e segurança em si próprios. O medo fugiria da verdade, e a mentira alcançaria os falsos testemunhos. Em compensação a mentira não iria ser crucificada, pois sem ela não se diferencia a verdade.

O mundo deixou de ser simples a partir do momento em que o homem fez frente á Natureza, a ordem natural das coisas foi alterada e o planeta cedeu e ficou fragilizado. Mas prefiro não pensar nisso, é demasiado cansativo e o peso sobre as costas aumenta colossalmente. Prefiro antes apreciar o que me rodeia, o cheiro da maresia, as ondas a bater nos barcos que se encontram na margem, e a chuva que me ensopa o cabelo e me cola a roupa ao corpo de forma inocente. Como é agradável fugir dos pensamentos negativos por uma vez que seja, sem receio das consequências. A água acumula-se na minha face, deslizando para os lados, as gotas que caiem a minha volta formam uma das mais belas melodias do mundo ao tocar o chão, apenas com um único instrumento, mas tantos sons diferentes são produzidos no mesmo instante, o som intensifica-se e a sensação faz-lhe companhia nesta demanda crescente. Uma voz masculina ouve-se ao fundo, um sorriso inexplicável surge no meu rosto, mal se percebe as palavras que ele diz mas isso não impede o absurdo sorriso de orelha a orelha que apresento naquele exacto momento, e o meu consciente não compreende a reacção do meu corpo, a voz aproxima-se, está a chamar por mim, mas não entendo, outros já me haviam chamado, porque é que com esta voz é diferente? Porque é que o meu ritmo cardíaco aumentou de forma perceptível? Porque é que sorrio cada vez mais á medida que ele se aproxima? Porque? O consciente atinge o conhecimento que o meu inconsciente já sabia desde do princípio, eu conheço aquela voz, pertence ao homem mais importante na minha vida, ao que me faz sorrir todos os dias, que me ama pelo que sou, sendo incapaz de me etiquetar como outros já fizeram. A compreensão ilumina-me o olhar e sou feliz naquele exacto momento. Aproxima-se de mim, toca-me na mão e ajuda-me a levantar, beija-me da maneira mais doce possível e abraça-me carinhosamente, e sem grandes rodeios profere as seguintes palavras “Vamos para casa amor”.

Nesse mesmo instante, não tenho medo do futuro, não receio que o Mundo se abata sobre mim, não estou sozinha, e isso é o mais importante de tudo.

Amo-te

Obrigado por existires.

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