E se numa dança pudesse demonstrar o que sinto seria raiva, amor ou esperança, uma dança de espadas recaídas numa atitude defensiva, tornando-me numa pessoa rabugenta e difícil, com passos cautelosos, ou passos apaixonados e intensos transmitindo o sentimento duplamente forte num contraste de atitude sublime, que enfatiza o ser mais neutral da história.
E se entre os rodopios da dança, lágrimas fossem esquecidas por entre os passos descoordenados que formam uma bonita coreografia, quem se sentaria na bancada feita de pedra e cal, para se dar ao trabalho de observar aqueles passos desnecessários incapazes de deslumbrar, apenas de sentir.
A dança estende-se com passos mais fortes e rápidos como se os golpes de dor me atingissem sempre que tocasse o chão, alguém ri á socapa, sem querer saber do que sinto, rindo do meu pesar, gargalhando da minha dor, troçando das minhas falhas gritando que não conseguirei…
O sentimento de raiva preenche-me sentido a familiaridade da voz os movimentos alteram-se o corpo desdobra-se sem ordem do meu consciente, a paixão de cada passo intensifica-se, a musica altera, um sorriso forma-se na minha face, danço com vida, como se fosse a minha ultima dança como se tudo a minha volta fosse o palco, como se fosse o palanque da minha vida, como se tudo se resumisse a isso, a movimentos de diferentes partes do corpo, como se cada movimento bem executado fosse uma vitoria na vida real, o suor preenche me a face comprovando o meu esforço, a voz a criticar silencia não tendo voz altiva de dizer seja o que for, os músculos estão doloridos do esforço, mas é uma dor que me completa que me dá animo, mas as forças abandonam-me como que dizendo que o limite foi atingido, mas eu não quero parar não sendo isto que me mantém viva, e se parar afim descansar como poderei eu saber que terei forças para recomeçar…
Num suspiro longo, as forças desaparecem por fim, sem aviso prévio ou explicação, o meu corpo tomba sobre o chão, exausto e realizado, tudo terminou tudo parou, as lágrimas surgem, como se uma derrota se tratasse, o ar deixou de circular dentro de mim, o batimento cardíaco cessou. É uma questão de tempo até que tudo desapareça e não de uma memoria apagada… e quando estou prestes a desistir de lutar pela vida, palmas se ouvem da bancada de pedra e cal, na qual apenas olhei uma vez, e apenas vi a única pessoa que me criticava, não vendo quem ao lado se sentava, quem agora batia palmas, quem agora gritava pelo meu nome, quem agora me dava os parabéns, quem esteve sempre lá a apoiar-me e eu simplesmente não via, cega estive este tempo todo, nunca estive sozinha, apenas não via quem me rodeava… a vida flui em mim de novo, a plateia aproxima-se erguendo-me do chão, dando-me o palco para que rodopie de novo, mostrando ao homem que me criticava quem sou, que nada do que ele me diga me atinge, que sou capaz de muito mais, e que tudo o que ele faça para me rebaixar apenas terá o efeito contrario, pois não estou sozinha…

