sábado, 17 de julho de 2010

As danças da vida

Há coisas interessantes de observar, até mesmo o pequeno nervosismo após um teste de matemática, ou alívio dependendo do ponto de vista. Descia de vagar, as escadas usadas da velha escola, quando um aglomerado de jovens se interpunha entre mim e a saída, no átrio da escola decorria uma pequena demonstração de dança, possivelmente fruto das aulas de educação Física, e nesse mesmo instante fui transportada para uma outra altura, um tempo não muito passado, mas o suficiente para sentir saudade.
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Sou um ano mais nova, no ginásio desta mesma escola, a professora ensina os primeiros passos de valsa, as raparigas riem-se dos passos desajeitados dos rapazes e estes, ao mínimo sinal de distracção da professora, param e recomeçam aquele tipo de algazarra típica de adolescentes do sexo masculino, estou nervosa, sempre tive um pouco de vergonha para dançar, principalmente a pares, não se encaixa na minha maneira de ser, o facto de ter de ser “levada” pelo meu companheiro, na minha filosofia de vida, a ideia deixa-me desconfortável. O primeiro par que calha na rifa é um rapaz de quase 1,95m de altura, apelidado de pé de “chumbo”, porque será?... Basicamente, ao invés de se dar ao mísero trabalho de colocar os pés no sítio correcto e direccionar-me para o local certo, levanta-me, com uma gentileza tímida, transporta-me pelo ar e coloca-me no sítio onde, para lá chegar, devia ter dado os três passos obrigatórios, limitando-se apenas a fazer-me voar para chegar ao destino. Não é que seja desagradável, apenas perde a piada, e um certo encanto, mas o que estraga mesmo tudo, é quando os pés deste mesmo gigante se designam a torturar os meus, fazendo com que os estes, fiquem ligeiramente esmagados por baixo dos seus.
Hora de trocar de par, graças a Deus, sem ofensa, mas o meu dedo mindinho já se estava a queixar. Brincadeira do destino, agora calha-me o pigmeu da turma, mas que se acha o forte lá do sítio, a única coisa que tem é uma boa garganta, não tendo força para me levantar no ar como o gigante, e eu não tendo ainda treinado (correctamente) vez alguma, arrasta-me pelo chão, quase tropeço nos seus pés, resmungando algo a que soou “lenta”, mas não tenho a certeza, a professora vira costas e começa a procurar um outro CD, enquanto isso, mais de metade dos pares pára, demonstrando assim o seu não consentimento perante a matéria leccionada, a música termina, e a professora volta-se, pedindo para que troquemos de novo de par.
Hora de alegria, calha-me “ele”, ao contrário dos outros, tem paciência, não me levanta no ar, ou me chama de lenta, limita-se apenas a pousar a mão com suavidade na minha cintura, e a pedir para relaxar, lembro exactamente das palavras que usou “Relaxa Vera, tas tão tensa, sente a música”, acompanhando as palavras com um breve sorriso, relaxei, mas senti-me atrapalhada por não estar á altura dele na dança, ao fim de alguns momentos já rodopiávamos pelo ginásio, senti-me bem, mas mesmo assim ainda me faltava algo, ia começar a conversar quando a professora dá por terminada a aula, ele retira a mão da minha, com uma delicadeza indescritível, volta-se com suavidade e dirige-se a porta do ginásio.
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Alguém me empurrou, a demonstração de dança acabou e agora os alunos querem ir para o recreio, apresso-me a sair, não gosto de relembrar momentos pelos quais não posso passar outra vez, eu estou diferente, mas “ele” também… O que não implica a mudança na saudade que possa sentir.

Bella S.

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