É quando se esconde uma lágrima por entre tantas que frustradas se escondem, que se sente o tamanho da dor, pendente da ferida aberta que brota do coração melindrado sem cura, ou com cura demasiado longínqua, situada além da fronteira da cidade. A garganta fecha consumida com a sensação de desamparo existente da falta continua ao longo dos anos. O chuveiro flui sofre o meu corpo gelado, a água queima em contacto com a minha pele, frágil de extrema sensibilidade, e nesse tempo precioso as lágrimas deslizam misturando-se com a água que acaricia a pele, o choro esquece a desonra, perde-se na mágoa, mistura-se com a água doce que advêm do chuveiro, sem consentimento meu misturando-se numa cascata imaginaria que me faz sentir frágil perante olhares inexistentes.
Sem querer ver ou esperar na encruzilhada dos pensamentos a casa fica vazia e nos segundos que antecedem o ligar ao dono do meu coração a fim de chacinar as saudades que tanto me perturbam, ou falar com os amigos sobre uma saída passada, a atracção ao solo intensifica-se, como um hímen camuflado que na realidade existe, caio sobre o chão, os soluços apoderam-se do meu peito e voz, sem qualquer autorização ou pedido justificado por requerimento emocional. As lágrimas soltam-se como um louco fugido da prisão. Derramam-se sobre os tacos gastos pelo tempo da casa que não reconheço como minha, escurecendo as zonas onde a água salgada emudece.
A dor pesa pressiona-me o corpo, torna-se física, a respiração cessa como se o mundo ficasse sem ar, num segundo de loucura inesperada, um sistema de defesa há muito banido por descontrolo desmedido, acciona porque as circunstancias assim o exigem, o tempo pára, os relógios formam estátuas, a dor paralisa, a gravidade não existe mais, mas algo se passa, algo horrível se passa e eu não sei o que é, caminho até porta, com passos pesados, o silêncio é a única coisa que pesa um grito abafado trespassa me o peito, sobre os meus pés uma guerra rebenta, algumas das pessoas que mais amo deitados sem vida sobre um chão que não conheço, amigos lutam ao longe, fora do meu alcance como que se fosse a última batalha que travassem, corro mas não saiu do mesmo sitio como um pesadelo, o meu olhar é atraído para uma área especifica no meio do caos, a pessoa que mais amo deitado sobre o chão sem vida, os meus joelhos dobram-se sobre si, berros rompem da minha garganta como se fossem punhais, as veias dilatam sobre a pressão que exerço sobre mim os meus braços rodeiam quem é dono de mim, grito para que me leve também a pulsação aumenta o limite está a ser atingido, estou prestes a ceder, a minha mente não aguenta mais grito como um mudo gritaria se ganha-se voz.
Tudo pára.
Ouve-se o tictac dos relógios ao fundo, uma névoa difusa evapora-se aos poucos, vejo um tecto, as minhas mãos ainda tremem, as lágrimas ainda estão húmidas nas maças do rosto, o peito não dói mais, o choro cessou, tudo não passara de um sonho, tudo está bem. E no meio da estupidez da cena uma gargalhada solta-se, tudo está bem, tudo, agora vejo que são meros problemas que me assolam a mente, tudo pode ser resolvido, uma sensação de alivio apodera-se de mim, levanto me, lavo a face e os olhos magoados, respiro uma e outra vez fundo e ligo aos meus amigos, como se nada se tivesse passado, com um novo animo e pensado na sorte que tenho em ainda te ter.










